Atualmente estamos a assistir a restrições sem precedentes no uso dos espaços públicos em todo o mundo. Tais restrições têm sido fundamentais para reduzir a transmissão de COVID-19 e proteger a saúde pública, no entanto têm levantado algumas questões sobre o futuro do espaço público e privado.

A COVID-19 revolucionou o conceito de viver em comunidade e trouxe novos hábitos ao quotidiano das pessoas que ficarão estabelecidos mesmo após a pandemia, o que levanta questões sobre como as relações sociais no espaço público podem estar a mudar, e compartilha-se uma incerteza sobre o que está por vir e se o nosso sentido de lugar e espaço será ou já estará permanentemente alterado. Esta transformação das vivências no espaço público e privado, apresenta-se como um enorme desafio para arquitetos, paisagistas, urbanistas e todos os profissionais que atuam no planeamento urbano e arquitetónico.

O que está a mudar?

Ao nível do parque edificado empresarial e comercial é notório o abandono de espaços e o aumento de edifícios vazios, provocados quer pelo maior número de pessoas em teletrabalho, quer pelo encerramento de empresas e serviços que não aguentaram a queda do mercado de consumo. Esta situação está a obrigar a uma reprogramação de muitos destes edifícios para novos usos e funções adaptados à nova realidade, ou seja, mais espaço e áreas de convívio e higiene, menos estações de trabalho, espaços mais flexíveis e que facilitem a interação entre colegas, parceiros e clientes, e a integração de espaços exteriores como por exemplo espaços verdes empresariais.

No que diz respeito aos espaços residenciais, há uma maior procura de habitações fora das cidades quer seja por motivos económicos, procura de espaços mais amplos e verdes ou simplesmente pela adoção de novos estilos de vida. Neste momento as pessoas passam mais tempo do que nunca nas suas casas, tempo esse mais agravado para aqueles que o teletrabalho se tornou numa realidade, e começam a sentir falta de espaços exteriores. A casa e o ambiente familiar devem, mais do que nunca, fomentar a saúde mental, sendo que a criação ou a reabilitação de espaços exteriores como jardins, varandas e terraços são essenciais para atingir essa meta e amenizar os efeitos provocados por este aumento de atividades em casa bem como pelo isolamento social que temos vivido.

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A relação das pessoas com o espaço público também está a mudar. Parques, jardins, áreas verdes de proximidade, praças e outros espaços públicos de atividade exterior já não são vistos como elementos supérfluos da estrutura urbana, mas sim como espaços essenciais das cidades e que não devem ser desassociados da saúde pública, física e mental, e onde a Arquitetura Paisagista se apresenta com um papel fundamental no desenvolvimento e melhoria destes espaços.

As cidades de 15 minutos começam a ser ponderadas em cidades como Paris e Milão, as quais se baseiam na ideia de que, em 15 minutos, a pé ou de bicicleta, a pessoa pode chegar aos principais serviços e pontos de interesse que precisa para o seu quotidiano. Os bairros comunitários começam novamente a ser tendência e, nesse seguimento, o surgimento de pequenos espaços de comércio local e as ruas devolvidas às pessoas como pontos de socialização e recreio voltam a ganhar destaque. O futuro pode passar pelo local, definitivamente.

Invariavelmente, todos os aspetos atrás referidos estão a mudar também a configuração e as necessidades da mobilidade urbana. Houve um retrocesso nas pretensões para a mobilidade mundial, há mais pessoas a voltar a utilizar viatura própria e individual, menos congestionamentos no trânsito, os transportes coletivos são neste momento uma incógnita na sua funcionalidade e denota-se uma tendência de maior investimento em redes de ciclovias e pedonais.

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Qual o futuro dos nossos espaços públicos e privados?

A COVID-19 não é a primeira pandemia que atinge a sociedade e não é a primeira vez que o planeamento e o desenho do espaço público e privado se concentra na melhoria da saúde pública. Foi, aliás, a procura de melhores condições sanitárias para as nossas cidades que motivou urbanistas, arquitetos e engenheiros a redesenhar espaços no final do século XIX.

Neste momento, há uma grande incerteza sobre como a COVID-19 irá afetar o planeamento, o uso e as perceções do espaço público e privado. Não está claro se os impactos da COVID-19 serão tão profundos quanto noutros aspetos da nossa vida, no entanto, coloca-se uma questão essencial que é por quanto tempo esses impactos serão sentidos e quais serão as suas repercussões. Será que a Covid-19 irá definir um antes e um depois naquilo que é o planeamento e o desenho dos nossos espaços? Devemos nós ser capazes de aproveitar a atual experiência para nos adaptarmos, atualizarmos as nossas práticas e melhorarmos a integração da saúde pública no planeamento dos nossos espaços? Ou será que o impacto não vai ser assim tão profundo e esta pandemia vai servir apenas para aperfeiçoar as práticas atuais, mantendo inalterados os valores fundamentais e as abordagens correntes?

Independentemente do rumo a seguir, nós, Arquitetos Paisagistas, mantemos o compromisso de gerir os nossos ambientes naturais para as gerações futuras e de conectar as pessoas com a natureza nas nossas cidades e nas nossas casas.


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